Tecnologia: É o fim do trabalho? – Faculdade Victor Hugo
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Tecnologia: É o fim do trabalho?

A sociedade sem trabalho da utopia futurista pode estar bem distante. Todavia, caso ela algum dia se converta em realidade, é provável que venha a desencadear grave crise de personalidade

A execução do trabalho é atividade do trabalhador; é a atividade do ser humano e parte essencial da humanidade. Ela tem lógica. Tem dinâmica e dimensões. A execução do trabalho tem cinco dimensões. Em todas elas, o trabalhador precisa realizar para ser produtivo.

A dimensão das pessoas no trabalho, que será abordada neste texto, é psicológica. O trabalho, sabe-se, é tanto encargo quanto necessidade, tanto maldição quanto bem aventurança. Se isso é genético ou cultural, não se sabe – e não importa muito. Ao chegarem á idade de quatro ou cinco anos, os seres humanos já foram condicionados a trabalhar. Sem dúvida, o trabalho infantil é proibido na maioria dos países, mas aprender os fundamentos de ser uma pessoa, mormente aprender a falar, é trabalho e cria o hábito do trabalho. O desemprego, sabe-se há muito tempo, acarreta graves transtornos psicológicos, não por causa das privações econômicas, mas, sobretudo, por força de seus efeitos sobre a autoestima. O trabalho é extensão da personalidade. É realização. É uma das maneiras pelas quais a pessoa se define e mede o próprio valor e humanidade.

A ociosidade é fácil, mas o lazer é difícil. Para as pessoas mais jovens, especialmente, tende a significar atividade frenética – ou o trabalho árduo de desvencilhar-se dos veículos em rodovias com excesso de trânsito – em vez de repouso psicológico. “Para ser aristocrata é preciso começar a aprender a ociosidade dignificante desde a mais tenra infância”, era mote comum na mais esnobe das sociedades ocidentais, a sociedade Whig do fim do século dezoito e do começo do século dezenove, na Inglaterra. “O diabo encontra trabalho para mãos ociosas”, diz um provérbio ainda mais antigo.

A característica peculiar da ética do trabalho no Ocidente – que remonta mais a São Bento de Núrsia, no século seis, que a Calvino, no século quinze – não é a santificação e a glorificação do trabalho. Essa característica não era nem nova nem particularmente ocidental. Ela santificava a vocação; ela pregava que todo trabalho era serviço e contribuição, igualmente merecedores de respeito. Para os monges beneditinos, o trabalho manual nos campos e nas oficinas era igual ao trabalho de orar e ensinar. Foi uma ruptura deliberada com as crenças anteriores da antiguidade, segundo as quais os cavalheiros ou os homens livres tinham de libertar-se das tarefas manuais e ter tempo para trabalhos superiores, para o aprendizado, para as coisas de Estado, para os deveres cívicos e para o serviço militar. em consequência, a antiguidade – mas também a maioria das civilizações não ocidentais – ordenava diferentes tipos de trabalho numa hierarquia de personalidades, com o trabalho manual pertencendo ao ignóbil ou o obscuro – executando trabalho mais demandante e mais responsável. Quando o mandarim chinês se aposentava em seus domínios ancestrais, depois de uma carreira bem-sucedida no governo, não devia levar uma vida de lazer. Ao contrário, devia dedicar-se a outros afazeres ainda mais produtivos, como caligrafia e pintura, música e literatura. E a justificativa para essas atividades eram, acima de tudo, todas as suas contribuições sociais. Na ética social de Confúcio, esses desideratos eram necessários para preservar a harmonia social que depende tudo o mais.

Pouco se questiona, contudo, que as revoluções comerciais e industriais dos séculos dezoito e dezenove tenham acarretado grande rearranjo nas horas trabalhadas por agricultores, operadores de máquinas, comerciantes e industriais.

Em grande medida, isso refletiu melhoria substancial nas condições de vida e, acima de tudo, na alimentação, que aumentou em muito a energia física disponível para o trabalho ( da mesma maneira como o cavalo ou boi, podia executar muito mais trabalho no curso de um ano que seu ancestral de cem anos antes, uma vez que a invenção do silo oferecia alimentação adequada durante os meses de inverno. Por mais horríveis que fossem as condições de vida nas favelas das cidades industriais do século dezenove – ou hoje, nas favelas e nas palafitas que cercam as cidades da América Latina – , elas eram melhores quanto à alimentação que as condições em que subsistiam os trabalhadores sem-terra, os tecelões e os fiandeiros nas fábricas de fundo de quintal. Se alguém duvidar disso, basta atentar para a comida com que os marujos sobreviviam e trabalhavam nos veleiros. Muitos são os registros em clássicos da literatura, como Two Years Before the Mast, de Richard Henry Dana Júnior, Typee e Moby Dick, os dois últimos de Melville, ou nas outrora populares histórias navais do capitão Frederick Marryat. No entanto, os marinheiros, segundo todos os relatos, eram os trabalhadores mais bem alimentados, não só porque o trabalho era pesado e exigia muito preparo físico, mas também porque o motim era uma ameaça sempre presente.

O grande aumento da demanda por trabalho nesses séculos também representou mudança de valores. As recompensas econômicas se tornaram cada vez mais significativas – talvez porque, principalmente, também as satisfações econômicas se tornavam cada vez mais comuns. Os proletários nas favelas do século dezenove, em Liverpool ou Manchester, não podiam comprar muito, mesmo que tivessem emprego e recebessem salário; eles não tinham poder de compra. Mas o poder de compra não teria ajudado seus avós, os trabalhadores sem-terra; pois não havia nada a comprar por volta de mil setecentos e cinquenta.

Portanto, a rejeição da ética do trabalho – se houver esse fenômeno fora das manchetes – não representa hedonismo. Em parte, significa uma reação contra longas décadas de excesso de trabalho e um acerto do equilíbrio. No entanto, em maior parte, representa um retorno a conceitos elitistas anteriores sobre o trabalho, que relaciona certos tipos de trabalho à nobreza ou à vilania da pessoa. O que abona essa hipótese é o valor altamente positivo atribuído pelos jovens educados, que supostamente repudiam a ética do trabalho, aos professores e artistas. Magistério e arte, contudo são capatazes muito mais exigentes que a operação de máquinas ou a venda de sabão.

Com efeito, a sociedade sem trabalho da utopia futurista pode estar bem distante dos olhos das pessoas de hoje. Todavia, caso ela algum dia se converta em realidade, é provável que venha a desencadear grave crise de personalidade na maioria das pessoas. Talvez seja por sorte que, até agora, ainda não haja o mais tênue fato para sustentar a previsão do fim iminente do trabalho. Até agora, a tarefa é fazer com que o trabalho atenda às necessidades psicológicas da humanidade. Outras informações podem ser obtidas no livro Fator humano e desempenho, de autoria de Peter F. Drucker.

Fonte: Administradores

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