O desastre é Friboi, mas a indigestão será toda nossa – Faculdade Victor Hugo
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O desastre é Friboi, mas a indigestão será toda nossa

Qualidade tem nome?

O texto a seguir não representa a opinião da nossa instituição, está sendo repassado como material para discussão e análise aos nossos alunos e interessados da área.


Primeiro, sejamos razoáveis: se os maiores produtores de proteína do mundo, JBS (Friboi, Seara e Swift) e BRF (Sadia e Perdigão), vendessem carnes estragadas, recheadas com tudo o que estão aventando por aí, teríamos mais mortes por intoxicação do que no trânsito brasileiro (55 mil vítimas por ano).

Portanto, muita hora nessa calma.

Segundo, por mais falcatruas que alguns funcionários dessas empresas e fiscais do Ministério da Agricultura tenham (supostamente) cometido, como demonstram as evidências, é risível acreditar que grupos dessa envergadura, com 300 mil colaboradores e exportações para 150 países, tenham crescido e se estabelecido alicerçados em mentiras, falta de higiene e propaganda enganosa.

Estamos falando de empresas que movimentam bilhões de dólares anualmente, com décadas de história e sólidas ramificações por esse imenso Brasil e exterior, onde as barreiras comerciais são quase intransponíveis.

Precisa apurar, apurar e apurar.

Entenda o caso

A operação da Polícia Federal Carne Fraca revelou a existência de uma organização criminosa que, em troca de propina, liberava produtos sem fiscalização. Segundo a PF, 40 frigoríficos cometeram alguma irregularidade. O Ministério da Agricultura informou que três unidades foram fechadas: duas do frigorífico Peccin, em Jaguará do Sul (SC) e em Curitiba (PR), e uma da BRF, em Mineiro (GO). Outras 21 estão sob suspeita.

JBS e BRF negam as irregularidades.

A dona da Friboi, Seara e Swift, inclusive, enumera 10 posicionamentos a respeito de sua qualidade.

Para parte da imprensa e, especialmente, o tribunal inquisidor da internet, porém, não bastou. Por estar há anos nos convencendo de que vende qualidade, a marca Friboi, da JBS – embora não tenha produtos envolvidos nas denúncias de irregularidades – vem pagando um preço caro e vê, desde sexta, sua imagem pública derreter.

Mesmo que não tenham culpa alguma nessa história toda, as líderes terão de se defender pelo que não fizeram. Assim é o mundo em 2017.

Derrocada

O tsunami que eclodiu na sexta após o anúncio dos dois anos de investigação da Polícia Federal inundou a imprensa, nossos WhatsApps e redes sociais com imagens de todos os tipos de comida feitas de papelão, memes e muita gritaria, está só no começo.

Ainda veremos muito mais emergir desse lodaçal: prisões, gravações, fotos, depoimentos, números maquiados e uma guerra maciça de propaganda para desmentir aquilo que tem se falado – e até provado.

Na sexta, as ações da JBS lideraram as quedas no Ibovespa, com perda de 10,59%, terminando o pregão cotadas a R$ 10,72. As da BRF ficaram em segundo lugar em desvalorizações, e caíram 7,25%, a R$ 37,10.

Somente nesta sessão, a JBS perdeu cerca de R$ 3,5 bilhões em valor de mercado e, a BRF, R$ 2,4 bilhões.

Catástrofe sem precedentes

A União Europeia decidiu nesta segunda-feira suspender a importação de carne de todas as empresas brasileiras envolvidas na operação Carne Fraca. Mais cedo, a Coreia do Sul já havia decidido proibir temporariamente a venda de e produtos de frango da BRF, das marcas Sadia e Perdigão.

Os Estados Unidos podem ir pelo mesmo caminho.

Quem celebra o escândalo protagonizado pelos frigoríficos e produtores de proteína animal talvez não tenha se dado conta, mas, ao saírem arranhadas duas das maiores empresas do País e toda a cadeia ligada a elas, perdemos todos. A quebra de confiança junto ao consumidor ficará na conta do já debilitadíssimo Brasil, que ganhou as manchetes mundiais por “servir carne podre a crianças”, entre outros.

Tendo acontecido episódios dessa natureza, e tudo indica que sim, que sejam presos e punidos os responsáveis. O que não se pode é culpabilizar um setor inteiro. É descabido.

A carne fraca brasileira ainda abre um precedente sombrio, para não dizer catastrófico, para a indústria mais fortalecida do Brasil, o Agro. Possíveis respingos no setor que carrega o Brasil nas costas, e faz tempo, são uma possibilidade real.

Para se ter ideia do tamanho do problema, o Agro deve responder por metade do incremento no PIB em 2017 – o setor deve crescer 9%, impulsionado pela safra recorde de grãos, que deve superar as 220 milhões de toneladas.

Falando apenas em proteína animal, entram nos cofres nacionais, só em exportações, US$ 14,5 bilhões em receitas (R$ 48 bilhões) anualmente.

Por aqui, operação fez o presidente Michel Temer, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e representantes do setor agropecuário buscar medidas para enfrentar a crise. Maggi reclamou que o Ministério da Agricultura não foi consultado e disse que poderia ter esclarecido pontos considerados irregulares pela PF, mas que são práticas do setor.

Nas ruas, efeito imediato: no Rio Grande do Sul, berço do churrasco, a busca por carnes com selo diminuiu sensivelmente: gaúchos trocaram cortes bovinos embalados vendidos em supermercados por carne fresca comprada diretamente do açougue.

Roberto, Tony, Fátima e De Niro

Sim, a saga da Friboi e da BRF rumo à retomada da credibilidade só está no início. Como bem disse o colunista Mauro Zafalon, na Folha de S. Paulo, “o setor vai precisar de muitos Tonys Ramos, Fátimas Bernardes e Roberts de Niro para fazer o consumidor voltar a acreditar que o produto brasileiro tem boa qualidade”.

Quem não lucrou nas propagandas da Friboi, Seara, Sadia e Perdigão, como você, eu e centenas de milhões de brasileiros, segue navegando na instabilidade financeira e nesse mar de corrupção chamado Brasil, com seus Estados pedindo arrego por falta de verbas, 13 milhões de desempregados correndo atrás de dinheiro para pagar as contas do mês, impunidade e epidemias letais a rodo, como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.

Se existe um lado bom nessa bandalheira toda – e sempre há – é que, pela primeira vez, as lonas desse circo dos horrores estão escancaradas e quem sabe aí aprendamos algo com isso tudo.

O lado ruim? A profundidade e a extensão dessa pesada indigestão.

Haja sal de fruta.

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Autor: Marc Tawil

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