Apesar da tecnologia, profissões resistem ao tempo e à extinção
Faculdade Victor Hugo
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Apesar da tecnologia, profissões resistem ao tempo e à extinção

Mudanças sociais e tecnológicas fazem com que muitas profissões, antes comuns e desejadas, se tornem cada vez mais raras.

Fazer roupas sob medida se tornou o ofício de Irma há 19 anos

Mudanças sociais e tecnológicas fazem com que muitas profissões, antes comuns e desejadas, se tornem cada vez mais raras. Alfaiates, sapateiros, amoladores de faca, caligrafistas, barbeiros, costureiras e seleiros, são alguns exemplos. Nesse cenário, porém, quem tem uma habilidade pouco difundida acaba se tornando referência. Há aqueles que resistem a deixar essas atividades e os que promovem a renovação dessas ocupações. Como motivação, a satisfação em oferecer um trabalho de qualidade e personalizado em meio a uma sociedade que produz de forma cada vez mais industrializada, massificada e padronizada.

Para o sapateiro Marcelo Ferreira de Almeida, 38 anos, há uma super valorização do conhecimento formal e dos títulos. “Eu acho que a gente vive em uma cultura do diploma e as pessoas se apegam muito a isso. Tem muita gente formada em advogado que não ganha o que eu ganho”, diz. O conhecimento técnico necessário para o conserto dos sapatos e acessórios não tem manual, é na base da experimentação e criatividade. Nem sempre há uma peça ou forma pronta para reparar um dano e é preciso improvisar. “Você se torna meio que um criador em cima de uma criação.”

Almeida conta que aprendeu observando os sapateiros no comércio de seus pais, na rua Padre Luiz, no Centro, onde hoje mantém a Sapataria Cordeiro. Na época, sua mãe também trabalhava no local como costureira, mas hoje está aposentada. Há 8 anos ele se dedica ao ofício, sendo que anteriormente atuava como operador de máquinas em uma indústria de plásticos.

Para o sapateiro, o futuro da profissão está garantido e é observado na quantidade de clientes — de todas as idades — que atende diariamente. “Trabalho com um agenda de 15 dias no mínimo”. Ele avalia que a profissão de fato mudou muito — antigamente os sapateiros eram requisitados e prestigiados pelo trabalho de confeccionar sapatos sob medida, enquanto hoje atuam nos reparos. Apesar das mudanças, acredita que o ofício vai longe. “Tinha um sapateiro que trabalhava aqui e dizia que serviço de sapateiro vai continuar existindo enquanto tiver pessoas nascendo com pé”.

Qualidade como diferencial 

O sapateiro vê novo fôlego para a profissão com a mudança do comportamento de consumo, com pessoas que voltam a ver nos produtos de qualidade uma alternativa mais sustentável, em detrimento dos produtos de “fast fashion”. “Acho que teve uma febre do mercado de coisas descartáveis, mas parece que as pessoas estão tomando consciência agora de que não vale a pena mais o descartável. E o que ocorre agora é que as pessoas estão voltando a consertar”, diz.

É também entre os que apreciam os produtos de qualidade que a costureira Irma Moreira Santiago Moisés, 54 anos, encontra seus clientes. Homens e mulheres que buscam peças com caimento perfeito que é adquirido somente após os ajustes da costureira. Barras, apertos e reformas que transformam peças feitas em tamanho padrão em algo sob medida. A profissional trabalha ainda com reparos e personalizando peças. “O pessoal procura customizar as roupas”, conta.

Irma relata que costura desde criança tendo crescido com tios alfaiates e uma avó costureira. “Eu praticamente nasci costurando”, diz. Ela recorda, no entanto, que apenas costurava para os membros da família e que assumiu a habilidade como ofício após o fim de seu casamento. Já são 19 anos como costureira e a oficina Costura Fácil é referência na rua Mascarenhas Camelo, na Vila Santana — via que concentrou ao longo dos anos vários alfaiate e sapateiros, sendo que alguns ainda resistem.

Para ela, a profissão é um caminho que não quer deixar de trilhar. “Eu amo o que faço”. E para continuar, apesar de todo o conhecimento adquirido em casa e nos anos de trabalho, segue se aperfeiçoando por meio de cursos. Para a costureira, o trabalho bem feito é o grande diferencial. Irma observa a expansão de costureiras que atuam com menos profissionalização, muitas vezes em casa mesmo, e se preocupa com a qualidade desse serviço.

30 anos de experiência

O seleiro Antônio Alexandre de Oliveira, de 57 anos, — conhecido como Nino Seleiro — também lamenta a competição com produtos de qualidade inferior, porém vendidos a custo menor. O homem atua há três décadas fazendo, reparando e reformando selas em Sorocaba. Um trabalho artesanal e cuidadoso, que hoje compete com selas feitas à máquina utilizando material de baixa qualidade. Enquanto essas selas — que muitas vezes são desconfortáveis aos cavalos — são vendidas entre R$300 a R$ 500, uma sela confeccionada pelo profissional custa entre R$ 1.500 a R$ 5 mil. Ele leva até uma semana para terminar o trabalho. “Quem conhece prefere. Pois a sela tem que ser confortável para você e para o cavalo.” Hoje sua clientela consiste em sua maioria de proprietários que cavalgam por lazer e criadores de cavalo da região de Sorocaba.

Para Nino, o caminho da profissão será semelhante ao que ocorreu nos Estados Unidos, onde as selas passaram pela industrialização, mas os consumidores voltaram a optar pelo produto manual. “Creio que vai demorar, mas o pessoal começará a ver ( a questão da qualidade).” Ele conta que o que o atraiu para a profissão foi justamente o gosto pelo trabalho manual.

Vindo de Barretos, chegou a atuar como torneiro mecânico, mas não gostou do ofício. Um amigo que trabalhava fazendo bainhas de facas precisava de um ajudante. A partir dali começou a trabalhar com couro e conseguiu um mentor que o ensinou o ofício — que carrega com orgulho até no nome. O futuro incerto da profissão, as dificuldades impostas pela industrialização e a até a mão calejada pelo couro viram coadjuvantes quando vê suas criações prontas. “Eu trabalho por amor”.

Fonte: Jornal Cruzeiro

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